Esta série de trabalhos de pintura, com escrita e colagens de papel sobre tela, precisa ser enquadrada no contexto de um percurso anterior de criação artística, onde o lugar da escrita tem sido questionado de diversas formas, com repercussões na forma como a pintura se desenvolve.
Nesta série “Sinal Breve”, associada intrinsecamente a um livro de poemas, também da minha autoria, com o mesmo título, o tratamento da escrita é feito de modo relativamente uniforme, pelo que a escrita do poema que cada trabalho desenvolve surge sempre numa fase final, escrito sem rasuras, a lápis, constituindo isso símbolo de depuração. Os próprios poemas, a escolha dos materiais, das cores (azuis e transparências) e das formas para as colagens, bem como o formato do seu suporte (de pequeno formato e horizontal), são representativas de uma intenção permanente de contenção e de busca da essência, na existência e para além dela.
A pesquisa não parece ser, à partida, centrada nos aspectos de ordem pictórica. Pretende-se sobretudo que estes sejam meios para o aprofundamento de uma pesquisa dos sentidos subjacentes e que são desenvolvidos nos poemas.
Mas até que ponto estou a aprofundar alguma coisa com a pintura? Até que ponto o aprofundamento não se fixou, cristalizado no momento de dar por terminado o poema? A ser assim a pintura seria apenas um prolongamento natural, mantendo o sentido de depuração, de contenção, de síntese que os próprios poemas buscam, traduzido agora numa linguagem plástica. Mas não seria instrumento para continuar a pesquisar. Há, no entanto, uma espiritualidade que se desprende dos trabalhos e há formas que se repetem. É uma busca de arquétipos, das formas que estão subjacentes ao visível e que atravessam as diferentes experiências vividas e sentidas. Assim, o aprofundamento das formas visuais terá um lugar próprio onde elas têm um valor por si, um valor para além das palavras e um valor para além delas próprias.
Procuro, ainda, construir uma realidade complexa, integrando duas linguagens num só suporte. As palavras não existem em paralelo às imagens. As palavras fazem parte das imagens. São o veículo do silêncio que se desprende delas, no lugar dos seus interstícios. E o todo é a composição que se estabelece com os elementos presentes, com os materiais, com as cores, com o fundo e as formas. Não se reduzindo o todo a nenhuma das partes, questiona-se e nega-se aqui o valor isolado destas. Sendo na interacção entre as partes que o todo se revela, significante e significado. Um todo que se pretende contenha o todo mais amplo que se quer apreender, como um holograma onde em cada parte se contém a informação do todo. Mais do que um holograma, por se querer captar a sua alma. Embora sem a aprisionar, deixando que ela flua e se transmute dentro de cada ser que a pressinta e a faça sua. Só completa a obra com o seu leitor. Objecto inerte antes dele. Interrogação sempre de que seja possível apreender tal complexidade. Sendo talvez possível apenas criar dentro dela. Embora possa isso ajudar a desenvolvê-la. Pretensão de que a arte seja um caminho de aprofundamento, não apenas do conhecimento da realidade, mas da própria realidade.